terça-feira, 29 de julho de 2014

Felicidade

Não sei mais viver
De felicidade adjunta.
Felicidade tem que ser substantivo,
pode até ser complemento,
mas não deverá nunca,
jamais,
ser adverbio.
Felicidade tem que ser de verdade,
tem que ser verbo,
e executar seu adjetivo.
E por falar nisso, Felicidade não é adjetivo
A gente não dá e acha de volta em qualquer lugar
Felicidade tá mais pra nome...
É que a Felicidade
Ela tem que ser sujeito
Nunca pode ser predicado,
Senão você fica prejudicado...
Então, pra não dar prejuízo,
Felicidade é oração
coordenada substantiva,
com complemento nominal.
Porque, de qualquer forma,
se não fosse,
seria.
E a Felicidade é.
É quase tudo.

Só não serve pra ser adjunto.

sábado, 26 de julho de 2014

sobre o hoje e o amanhã (talvez)





É engraçado o que venho escrevendo por agora. É como se fosse apenas o reflexo do que era antes.
Minha chama, parece que ela se apagou. Sobraram as fumaças, e essas fumaças são as poesias de hoje. Tudo o que escrevo são anagramas daquilo que já fiz antes.

Minha música, parece que ela se findou. Sobraram só os ecos, e os ecos das palavras que já escrevi outrora parecem ser a única coisa que sei agora escrever.

Meu filme, parece que ele acabou. Sobraram só os créditos, e eles sobem com os nomes de tudo o que já me inspirou um dia.

Agora eu quero alguma coisa pra sentir. Quero humanidade para preencher meus pulmões, insanidade para compor meus versos. Quero sentir as palavras escorrendo novamente, queimando cada célula do meu corpo, me fazendo renascer das minhas próprias cinzas.

Onde estão as minhas canções intermináveis?, onde foram parar? Onde ficaram as lágrimas, as noites sem dormir, os lamentos, os tormentos, os suspiros em meio ao caos universal que se condensava no meu peito? Eu sou o escravo que sente falta de suas algemas; eu sou a alma que corre livre pelos prados a procura de uma nova maldição; eu sou vazio do presente que clama pelo medo e a dor do passado; eu sou aquele curado que anseia novamente a enfermidade; aquele aleijado que deseja retornar à cadeira; aquele... aquele... aquele o quê? Não sei dizer.

Sou poeta sem palavras. Toda a beleza da minha dor se esvaiu. Todo o caos da minha alma se acalmou. Toda poeira da minha memória se assentou. E no retrato de mim mesma eu fecho os olhos com calma e dedilho o teclado como se fosse um piano, só que o que sinto quando escrevo é, hoje, apenas o eco do que fora um dia.

Mas esse é o hoje. Apenas o hoje.

Talvez o amanhã me traga novas palavras.


segunda-feira, 26 de maio de 2014

sobre a escrita de poesia



Nas minhas confissões eu digo que te quis como queria escrever meu primeiro poema. E era você as minhas primeiras linhas tortas onde deus não escrevia. E minhas linhas se endireitaram a ponto de se entortarem de novo.

E a minha primeira prosa foi você. Proseamos um dia inteiro e o dia pela metade me parecia. Mas o dia estava completo. Repleto da poesia que emana dos teus lábios sem que você perceba. E eu sempre recolho.

Experimentando o sabor que sai deles, percebo que Drummond, Machado de Assis, Rimbaud, Baudelaire e tantos outros não faziam a menor ideia do que era a poesia imaculada, pura e em flor. A poesia em botão que floresce junto ao meu peito. A poesia que atropela pontos e vírgulas e pausas porque é tão apaixonada que não sabe respirar enquanto percorre toda a essência do teu ser e se espalha pelo meu corpo como o perfume mais embriagante e me leva para um canto distante onde eu possa me perder.

Quem se importa com as doses de lirismo das quais me embriaguei antes de te ver naquele começo de ano que agora me soa distante? Não existia poesia antes dos meus lábios conhecerem os teus. Ninguém nunca fará uma epopeia saudando meus tempos de embriaguez. Ninguém se lembrará dos vinhos que bebi e das poesias que foram abortadas por eles. Ninguém.

Mas todos irão lembrar-se da poesia que se fez carne; a carne que é consumida por mim. Todos hão de lembrar, antes que o ocaso falhe a memória: ele tinha uma Poesia!

Sim!, ele tinha uma Poesia com letra inicial maiúscula!, dirão. Tinha ele uma sereia, uma ninfa... ou qualquer nobre atribuição que queiram lhe competir. Aliás... Não. Ela não era sereia, ninfa ou qualquer nobre atribuição que queiram lhe competir... Porque ela transcendia tudo que há e há de haver neste mundo! A poesia foge a qualquer definição e tentar defini-la seria limitar os batimentos cardíacos de uma pessoa.

Ele tinha uma Poesia., digam isso e já basta. Não se lembrem de mim. Não há necessidade; um artista que se preza sabe que quem deve ser conhecida é a obra, não o artista. Basta dizerem que ele tinha uma Poesia. E eu concordarei. Ela é sua magnum opus em suas nuances e matizes.  E eu concordarei. Todo artista que se preza sabe que há uma paixão arrebatadora e inigualável entre artista e obra. Basta dizerem que ele a amava mais que tudo.

E eu concordarei satisfeito, mesmo sabendo da dor dessa Poesia.